Serralves – a festa com a lã portuguesa

No ano passado fui a Serralves para experimentar fiar com roda de fiar!  Este ano voltei, acompanhada pela Sara, e voltei a experimentar fiar com roda de fiar, uma nova, que não estava na edição anterior da feira.

Uma das grandes novidades deste ano foi a Exposição das Lãs Portuguesas atualmente existentes – foi a Alice Bernardo, no âmbito do seu projeto Saber Fazer , que organizou esta exposição para esta festa! Com esta exposição tivemos oportunidade de perceber as diferentes características das fibras de cada raça, o seu valor comercial, entre outros aspetos. Além disso, havia visita guiada pela própria Alice, que nos explicava todo o processo da lã, de uma maneira geral.

(*Marta: Não são lindas? Adoro as fotos! Para o ano também quero ir!!!*)

Considerando o pouco que ainda sei sobre a lã, para mim, contatar pessoalmente com a Alice Bernardo, questioná-la sobre algumas dúvidas e poder contar com o seu esclarecimento, tudo isto foi para mim algo de muito bom e senti-me uma verdadeira criança e entusiasta! A sensação é que quanto mais sabes sobre, mais vontade tens de saber mais! E há pormenores que só se apanham junto de alguém que sabe e percebe muito do assunto – e a Alice sabe (fazer)! Em contrapartida, também acho que só captei esses pormenores por causa das experiências que vou tendo cá por casa, a cardar e a fiar lã. Nós, por aqui, já tínhamos chegado à conclusão de que cardar bem a lã é meio caminho andado para fiar um fio mais uniforme. E isso é mesmo verdade! Mas acho que só nesta visita a Serralves é que me caiu a ficha e percebi realmente o que isto quer dizer e como fazer bem a coisa!

Agora até vos digo: nesta edição da Festa do Outono, a rainha da festa foi mesmo a ovelha Bordaleira de Entre-Douro-e-Minho, uma raça em vias de extinção e que, com o esforço conjunto da Amiba, se está a procurar manter, tentando que essa raça não se perca, que seja cuidada no sentido de ser valorizada, também, pela sua lã. A sua lã é mesmo muito fofinha e merece toda a preservação possível!

Sou sincera, não consigo ainda descrever toda a informação nova que trouxe deste dia passado em Serralves. Apenas vos digo que vim de lá muito feliz por saber um pouco mais sobre a lã portuguesa, sobre o porquê da GRANDE necessidade de valorizarmos as nossas lãs e de passarmos a palavra enquanto cidadãs e tricotadeiras! Tricotadeiras, valorizemos a nossa lã! Há lãs bonitas já no mercado. Lá em Serralves estavam as LINDAS meadas da Salva a lã Portuguesa! Acreditem, são mesmo lindas e dá vontade comprar todas as cores!

Partilhem as vossas experiências connosco! Mais alguém foi a Serralves?🙂

*A Ângela com malhas portuguesas nas mãos*
(e a Marta já a planear a ida do ano que vem!)

 

 

 

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lavar a lã

Dia: 4 de maio de 2016
Tempo: dia de sol; ar ameno e quente
Local: Pontével, Cartaxo – casa da Marta e arredores😉

Participantes: nós as duas (Ângela e Marta) e o Fausto

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Uma semana de calor, finalmente, para lavarmos a lã. E foi logo pela manhã, uma bela e solarenga manhã que começamos a lavar a lã. Esta lã foi-nos dada por uns amigos da Ângela, que, muito gentilmente, trouxeram para Leiria lã de ovelhas da Serra da Estrela, tosquiada ainda em 2015. Eram dois sacos cheios de lã! Ansiosas por meter as mãos nesta lã? Claro que sim! Super ansiosas! Dedicamos a manhã a lavar um dos sacos.


A Ângela já tinha experimentado lavar lã antes, em conjunto com a Mamã Natureza, e foi bom contarmos com a sua experiência.
A primeira tarefa: abrir o saco e perceber a quantidade de lã que dentro dele estava tão bem “arrumada”. E o primeiro desafio: desenrolar a lã sem “estragar” os velos de lã. Não sabíamos, ao certo,  quantos velos de lã estariam naquele saco.
Segunda: estender cada velo até perceber mais ou menos a forma da ovelha… Como podem ver pelas fotografias, um único saco continha imensa lã!
Depois de estendidos os vários velos, separamos a lã mais suja que, decididamente, não iria ser aproveitada para fiação. Fomos também tirando algumas farpas, carrapatos, ervas, até pequenos insetos estavam agarrados à lã.
Nesta fase, as nossas mãos ficaram cheias de gordura… Deliciamo-nos especialmente a olhar as fibras de lã, que nos pareceram de considerável tamanho. Isto a pensar na fiação…  E ainda decidimos separar uma parte da lã e dividir a lã a lavar nesse dia em dois montes, pois era muita e assim ficaria mais facilmente lavada.

Próxima tarefa: tratar da água.
Colocamos água a ferver numas bacias e juntamos água fria até a temperatura da água ficar quente (não muito morna nem muito fria). O suficiente para conseguirmos mergulhar as mãos lá dentro. Este pequeno grande pormenor aprendemos com o projeto bichinhos na cabeça.

Na realidade, as nossas bacias eram duas banheiras de bebé (dos filhotes da Marta) e serviram na perfeição para o nosso objetivo – manter a lã em água quente durante algum tempo, para que boa parte da lanolina saísse.


Enchemos a primeira bacia com água quente. Pusemos a lã lá dentro e tentamos também ir retirando sujidades. Como podem ver pelas fotos,  a água ficou super suja, da cor do galão! Mas as nossas mãos ficaram tão macias…

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E, enquanto a lã ficou a amolentar na primeira bacia, preparamos a segunda bacia.
Ao todo, a lã ficou a amolentar cerca de meia hora.
Entretanto, o Fausto preparou -nos um belo lanche para o almoço e nós carregamos o carro com todo o material  necessário para a tarefa seguinte: passar a a lã por água fria. Carro? Precisamos de ir de carro, pois não há sítio melhor para lavar do que uma ribeira. E a Marta soube de uma ribeira simplesmente incrível, quer dizer, altamente, num terreno de um particular conhecido. Assim, conseguimos passar a lã por água fria e pura que, juntamente com muitos outros cursos da zona, vai desaguar na Valada do Ribatejo.
Escorremos a água morna das bacias a quatro braços e… mais uma vez, improvisamos! Colocamos a lã (lavada na água quente) dentro de umas sacas de batata: perfeitas para sacudir a lã e para deixar sair as restantes sujidades, ao mesmo tempo que a água passa sem obstáculos!
Saímos de casa da Marta, munidas até com um carrinho de mão, seguimos então para perto da água. E o sol continua a brilhar.
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Antes, ao lavar a lã na água quente, foi realmente magnifico verificar as diferenças na cor da lã. Mas, nesta fase, assim que pusemos a lã na água fria, foi ainda melhor. À medida que íamos passando a lã pela água, a lã ficava cada vez mais branquinha!
Passamos quanto tempo dentro da água? Muito. E soube mesmo muito bem. Na água abundante e corrente pudemos agitar as sacas, uma de cada vez e até tiramos um pouco de lã para fora das sacas… Que brancura. E nem nos apetecia sair: penduramos as sacas numa cana e ficamos a conversar…
No fim de tão grande aventura, houve ainda tempo para mostrar a lã molhada aos meninos do Jardim de Infância local (onde está um dos meninos da Marta). E ainda fomos cardar e fiar na Escola Primária (na sala onde estuda a menina da Marta). Uff. (Mas… sobre isto falaremos noutra altura.)
De regresso a casa, estendemos a lã lavada num espaço quente e arejado. Resta-nos agora esperar uns dias. E, breve breve, estaremos a cardar e a fiar lã que nós próprias lavamos. Um privilégio raro.
Estamos muito agradecidas e queremos partilhar esta alegria com todos os que nos seguem aqui no blogue. Até à próxima!

 

uma manhã em cheio!

Quem: nós as duas = a Ângela e a Marta
Onde: na sala de expressão dramática🙂
Como: a convite do Centro Escolar de Barreira!
Quando: no dia 16 de março, das 9h00 às 12h15

Estivemos com malhas portuguesas nas mãos na companhia de muitos meninos e meninas! Que é como quem diz: 67 alunos do 1.º e 2.º anos; 42 alunos do 3.º ano; 34 alunos do 4.º ano. São muitos ou não?

Todos os meninos e meninas sabiam que a lã vem das ovelhas, claro! mas…. e o que é que acontece a essa matéria preciosa até chegar às nossas mãos?

Assim começou a nossa conversa. (Com um quase-guião muito livre, que nos permitia ir ao sabor da partilha.) E falamos das ovelhas a serem tosquiadas, pacientemente, na primavera, e a sorrirem da frescura que sentem no fim. De ovelhas brancas e de ovelhas castanhas. Falamos da água fria e da água quente que ajuda a lavar a lã, dos pedaços de ramos, dos carrapatos, das giestas, de tudo o que fica agarrado e que é preciso tirar. Falamos do abrir a lã e do grande primeiro passo: o cardar! Pentear a lã é uma revelação que partilhamos com entusiasmo. Só depois vem o fiar, usando o fuso. E depois ainda é que nasce o novelo. E os novelos de várias cores, naturais: o branco de ovelhas do minho (é Bucos!), o branco de ovelhas da serra da estrela (é élãportuguesa!), o castanho de ovelhas da serra da estrela (é Beiroa!)…. e as outras, tingidas. Brincamos sobre as ovelhas serem cor-de-laranja, azul ou até amarelo fluorescente… Fazemos o teste  “qual é a lã mais fofinha? esta cor-de-laranja (Cobertor) ou esta branca (élãportuguesa)?”(e este teste começa a ser um sério caso de diversão em qualquer encontro/iniciativa com a Marta). Até que a conversa se torna oficina de cardar, fiar e fazer (ou desfazer) novelos. E todos mexem nas lãs, experimentam as cardas e ensaiam o fiar (e o gesto de fiar começa a ser um sério caso de diversão em qualquer encontro/iniciativa com a Ângela).

Para nos ajudar a tornar tudo mais vívido e mais emocionante, mostramos vídeos de projetos que nos inspiram particularmente (vejam aqui), levamos livros muito especiais (olha aqui a lista) e partilhamos o conteúdo do nosso baú do tesouro. Em que consiste o nosso tesouro: lã que a Ângela lavou e cardou, pequenos novelos que cardamos e fiamos nos Encontros para fiar do ano passado, um fuso feito especialmente para a Ângela, lã virgem (branca e castanha) ainda antes de ser lavada (vinda da serra da estrela), um par de cardas pequenas (escovas para pentear o pêlo de cão), muitos novelos de lãs de marca portuguesa e… muita paixão pelas malhas nacionais!!!

 

As reações superaram fortemente as nossas tímidas expectativas. Tanto as professoras como os alunos, todos vibraram e encontraram num ou noutro momento algo de especialmente significativo nesta história de como a lã tosquiada chega às agulhas de tricotar ou aos teares. Foi, aliás, com grande satisfação que agradecemos os louvores ao nosso entusiasmo e as notas curiosas sobre o facto de esta ser uma atividade que fazemos por gosto.

Sorrisos, animação, movimentos ansiosos das mãos, olhares inquietos. Sabemos que a curiosidade destas crianças e professores não foi totalmente saciada e esperamos, sinceramente, que o bichinho continue vivo no seu imaginário e as leve a procurar mais,e, quem sabe, a encontrarem a sua maneira pessoal de viver o precioso ciclo da lã em Portugal.

na escola primária e no jardim de infância

Chamei-lhe *conhecer a lã*.
Parece uma banalidade mas não é: a maioria dos meninos e meninas do jardim de infância nunca tocou num novelo ou meada de lã portuguesa. E isso preocupa-me. A maioria dos meninos e meninas nunca viu como se tira a lã de uma ovelha, nunca viu o que acontece desde esse estranho casaco até ao fio. Também não é um cenário familiar a atividade de construir/experimentar algo com esses fios: seja uma peça de roupa, um objeto decorativo ou um brinquedo.
Levei novelos grandes e pequenos de lã de cores naturais: Bucos branco, um restinho de Mirandesa branco. Levei uma meada de Beiroa 2ply castanho natural. Novelos de cores tingidas: João azul, João rosa, Cobertor cenoura, Zagal roxo, Zagal amarelo, Beiroa limão. Levei novelos com etiquetas (como as lindas da João e da Bucos).
Levei agulhas de vários tamanhos e matérias. Levei peças acabadas (camisola, gola, meias) e peças em curso (meias).
Levei livros e mostrei fotos. Levei o computador e mostrei vídeos e mais fotos.
Falei sobre ovelhas felizes porque vivem na natureza e têm donos que tratam delas. Falei sobre pastores, pacientes, sobre tosquia, sobre mulheres que cantam para nºão adormecer enquanto trabalham a lã.
Terá sido um pouco lírico, quimérico (?!), onírico, utópico. Terá sido exagerado. Para mim faz parte: não me chega ficar em casa a tricotar e a usufruir do luxo das lãs portuguesas. Quero que façam parte, nem que seja por uma só tarde/manhã, da vida destas crianças.
Como me dizia a professora da minha filha L. (que anda  na primária), é muito bom ser uma pessoa adulta nova a mostrar estas coisas – ajuda-se a quebrar o estereótipo que a malha é coisa de velhinhas. Eu acrescento: combate-se pela “normalização” desta atividade (assim mais ou menos no espírito dos gangues da malha e suas presenças em lugares públicos).
No meio de tudo isto, uma das atividades especialmente curiosas foi pedir aos meninos que tocassem na Cobertor e na João e dissessem qual lhes parecia ser a mais fofa/macia. As respostas não foram unânimes e isso encheu-me de satisfação. A ideia da lã que pica é isso mesmo: uma ideia. Uma ideia tão propositadamente construída como outras que fui conhecendo ao longo da minha vida (e que fui aprendendo a desconstruir), sei lá, como a d’ “o leite é o alimento que tem mais cálcio”…
Obrigada à educadora e à professora por me deixarem entrar. Obrigada aos meninos por terem experimentado. 🙂 Ainda vai haver mais, e da próxima é com fuso!

*A Marta com as malhas portuguesas numa escola primária e num  jardim de infância*

banca/mostra no Seminário Nacional Eco-Escolas

Ontem, sábado, estivemos com uma banca na Eco-Mostra do Seminário Nacional da Eco-Escolas, em Leiria. Fui eu e a Mamã Natureza. A Marta não pode ir.

Foi a nossa primeira “aparição” ao público. Para além de algumas peças tricotadas com lãs portuguesas, levei também um cesto com mostra de lãs portuguesas (algumas ainda em meada), lã para cardar e fiar, os fusos e as cardas. Para mim, que lá estive todo o dia, foi um dia muito bem passado, entre tricotar (claro!) mas sobretudo, cardar e fiar lã. Experimentei com os dois fusos que tenho: um Drop Spindle  e um fuso português. Ainda sinto que tenho mais facilidade a fiar com o drop spindle, mas não vou desistir do fuso português! Contudo, acho que já estou a entrar naquela fase em que quanto mais fio, mais me apetece fiar, porque sinto que vou dominando melhor a técnica. E isso deixa-me super feliz!

No final, senti que o nosso projecto foi tão bem recebido e acarinhado pelas pessoas que por lá passaram. A maioria do público era professores e mostraram-se muito receptivos à ideia de as crianças tomarem contacto com o processo da lã, sobretudo, para também eles valorizarem este saber do antigamente.

Foi uma boa experiência e foi tão bom sentir que o nosso projecto faz muito sentido para a comunidade em geral. Obrigada a todos os que nos visitaram!

*A Ângela com malhas portuguesas nas mãos*

 

muitas lãs novas!

Este está a ser um ano em alta para verdadeiros fãs das lãs portuguesas!
É seguramente o ano chinês da ovelha ;-)
Muitas, tantas são as marcas/propostas novas que conhecemos este ano que espero não me esquecer de nenhuma.

 

Por aqui, no nosso modesto cantinho, já experimentámos algumas. E delas vos vamos falando enquanto tricotadeiras amadoras. Adorávamos ouvir as vossas experiências e opiniões😀